DOUTOR: 12 POR 8 DEIXOU DE SER PRESSÃO ARTERIAL NORMAL?
A hipertensão arterial sistêmica constitui um dos principais determinantes de morbimortalidade cardiovascular global, sendo responsável por elevada carga de doença associada a eventos coronarianos, cerebrovasculares e renais. O estabelecimento de pontos de corte para definição de normalidade pressórica é historicamente baseado na relação entre níveis tensionais e desfechos clínicos, e não em limites fisiológicos absolutos.
Nas últimas décadas, a transição de um modelo dicotômico (normal versus hipertenso) para um modelo contínuo de risco cardiovascular tem impulsionado revisões sucessivas das diretrizes internacionais, com tendência à antecipação diagnóstica e intensificação de estratégias preventivas. Esse cenário tem gerado dúvidas nas pessoas em geral, e até mesmo entre profissionais de saúde, a respeito dos novos conceitos e das recomendações modernas sobre o tema.
Diretrizes recentes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), American Heart Association (AHA) e Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC/ESH) incorporaram evidências epidemiológicas e ensaios clínicos randomizados que demonstram aumento progressivo do risco cardiovascular mesmo em níveis pressóricos anteriormente classificados como normais. A seguir, um resumo dos principais pontos das 3 diretrizes:
Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – SBC 2025
A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 introduziu modificações relevantes na estratificação pressórica, especialmente na redefinição da faixa intermediária de risco.
Atualmente, estabelece-se que:
Pressão arterial normal
PAS <120 mmHg e PAD <80 mmHg
Pré-hipertensão
PAS 120–139 mmHg e/ou PAD 80– 89 mmHg
Hipertensão arterial
PAS ≥140 mmHg e/ou PAD ≥90 mmHg
A principal inovação consiste na inclusão do valor tradicionalmente considerado normal (120/80 mmHg) dentro da categoria de pré-hipertensão, com objetivo de promover intervenção precoce baseada em mudanças de estilo de vida e monitorização mais rigorosa.
Essa modificação reflete a evidência de que indivíduos nessa faixa já apresentam incremento mensurável do risco cardiovascular e maior probabilidade de progressão para hipertensão estabelecida.
A classificação da hipertensão permanece estratificada em estágios:
- Estágio 1: 140–159 / 90–99 mmHg
- Estágio 2: 160–179 / 100–109 mmHg
- Estágio 3: ≥180 / ≥110 mmHg
Diretriz Americana – AHA/ACC
As diretrizes norte-americanas mantêm abordagem mais sensível para diagnóstico de hipertensão, definindo:
Normal
<120/<80 mmHg
Pressão elevada
120–129 e <80 mmHg
Hipertensão estágio 1
130–139 ou 80–89 mmHg
Hipertensão estágio 2
≥140 ou ≥90 mmHg
Esse modelo reduz o limiar diagnóstico formal de hipertensão para 130/80 mmHg, fundamentando-se na associação entre níveis tensionais moderadamente elevados e aumento do risco cardiovascular absoluto em longo prazo.
Além disso, a estratégia terapêutica norte-americana enfatiza a decisão baseada no risco cardiovascular global, com início precoce de farmacoterapia em pacientes de alto risco mesmo em níveis tensionais inferiores aos limiares clássicos.
Diretriz Europeia – ESC/ESH
As diretrizes europeias mantêm abordagem intermediária, preservando limiar diagnóstico tradicional, porém com maior estratificação dentro da faixa considerada normal.
De forma geral:
Ótima
<120/<80 mmHg
Normal
120–129 / 80–84 mmHg
Normal alta
130–139 / 85–89 mmHg
Hipertensão grau 1
≥140/90 mmHg
Diferentemente da AHA, a ESH considera valores entre 130–139/80–89 mmHg como normal alto ou estágio intermediário de risco, e não como hipertensão formal.
Essa abordagem preserva maior especificidade diagnóstica, reduzindo potencial sobrediagnóstico populacional, porém mantendo vigilância clínica em indivíduos com níveis tensionais limítrofes.
Convergências conceituais entre as diretrizes
Apesar das diferenças nos pontos de corte, há consenso internacional sobre princípios fundamentais:
- A pressão arterial representa variável contínua de risco cardiovascular.
- Intervenções não farmacológicas devem ser iniciadas precocemente.
- Há aumento progressivo de risco a partir de níveis pressóricos ainda dentro da faixa considerada normal em classificações históricas.
- A estratificação baseada em risco cardiovascular global deve nortear decisões terapêuticas.
A tendência contemporânea consiste em deslocar o foco do diagnóstico isolado para o manejo global do risco cardiometabólico.
Implicações práticas
A adoção de limiares mais baixos, especialmente no modelo norte-americano, resulta em maior prevalência diagnóstica de hipertensão, porém com potencial benefício na redução de eventos cardiovasculares ao longo do tempo.
Por outro lado, modelos como o europeu priorizam maior especificidade diagnóstica, evitando medicalização excessiva em populações de baixo risco.
O modelo brasileiro atual aproxima-se conceitualmente do paradigma preventivo, sem alterar formalmente o limiar diagnóstico de hipertensão, mas ampliando a zona de vigilância clínica.
Conclusão
As diretrizes contemporâneas convergem para o reconhecimento da pressão arterial como marcador contínuo de risco cardiovascular, com progressiva antecipação das estratégias preventivas.
Embora persistam diferenças nos limiares diagnósticos, observa-se tendência global de maior vigilância sobre níveis pressóricos previamente considerados normais, reforçando o papel das intervenções precoces na redução da carga global de doença cardiovascular.